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Igrejas protestantes: crescimento, poder e confiança pública

Um dossiê histórico e comparativo sobre quatro décadas de transformação religiosa no Brasil e no mundo.

Imagem de capa: Igrejas protestantes: crescimento, poder e confiança pública

Durante as últimas quatro décadas, o protestantismo passou por uma transformação que dificilmente pode ser compreendida apenas contando membros ou templos.

No Brasil, os evangélicos deixaram a condição de pequena minoria para se tornarem uma das maiores forças religiosas e sociais do país.

Nos Estados Unidos, o evangelicalismo conservador conquistou extraordinária capacidade de mobilização eleitoral, enquanto grandes denominações perderam membros e a confiança da população na religião organizada caiu dramaticamente.

Na América Latina, o catolicismo continua predominante, mas perdeu espaço tanto para o protestantismo quanto, cada vez mais, para pessoas sem filiação religiosa.

Na Europa, antigas estruturas cristãs enfrentam secularização, desfiliação e envelhecimento.

E a África Subsaariana, que no início do século XX ocupava posição periférica no imaginário cristão global, tornou-se a região que abriga o maior número de cristãos do planeta.

A história é tão complexa que três afirmações aparentemente contraditórias podem ser verdadeiras ao mesmo tempo:

o cristianismo está crescendo;

o cristianismo está diminuindo;

e o cristianismo está mudando.

Tudo depende de onde olhamos, o que medimos e qual período usamos como referência.

Mas existe uma questão ainda mais profunda.

Uma igreja pode crescer numericamente enquanto perde confiança?

Pode ganhar poder político enquanto perde autoridade moral?

Pode multiplicar templos e, ao mesmo tempo, produzir uma geração menos vinculada às instituições religiosas?

É justamente essa tensão que este estudo pretende investigar.

1. Antes dos números: como esta pesquisa deve ser lida

A primeira versão desta pesquisa reuniu informações do IBGE, Pew Research Center, Gallup, denominações religiosas, universidades e outras publicações para comparar o comportamento das igrejas entre os anos 1980, 1990 e o presente.

Nesta versão ampliada, o critério foi endurecido.

Sempre que possível, estatísticas centrais passam a ser sustentadas por quatro níveis de evidência:

Nível A — Fontes prioritárias

Censos, institutos oficiais e grandes pesquisas demográficas. São as fontes prioritárias para dados sobre população e filiação religiosa.

Nível B — Fontes acadêmicas

Artigos científicos, universidades e pesquisas revisadas academicamente. Fundamentam as interpretações históricas, políticas, econômicas e sociológicas.

Nível C — Fontes denominacionais

Dados publicados pelas próprias denominações. São utilizados para apresentar números de membros, igrejas, atividades e estruturas internas, sempre identificados como informações institucionais.

Nível D — Fontes de contexto

Imprensa, enciclopédias e fontes secundárias. Servem como contexto, mas não sustentam, isoladamente, as afirmações centrais.

Essa hierarquia é importante porque religião é um campo no qual números aparentemente semelhantes podem significar coisas bastante diferentes.

“Evangélico no Censo” não é necessariamente o mesmo que “membro registrado de uma denominação”.

“Membro” não é necessariamente alguém que frequenta semanalmente os cultos.

“Frequentador” não é necessariamente alguém formalmente filiado.

“Sem religião” também não significa necessariamente ateu.

E alguém que se identifica como cristão culturalmente pode participar muito pouco de uma comunidade religiosa.

Por isso, esta pesquisa evita tratar todas essas categorias como equivalentes.

2. Uma correção metodológica essencial sobre o Brasil

O IBGE divulgou os resultados de religião do Censo Demográfico de 2022 para a população de 10 anos ou mais. Essa definição precisa aparecer sempre que utilizamos os percentuais mais recentes. O próprio SIDRA registra explicitamente esse universo estatístico.

Na comparação preparada pelo IBGE utilizando o mesmo recorte de 10 anos ou mais, os católicos passaram de 65,0% em 2010 para 56,7% em 2022. Os evangélicos passaram de 21,7% para 26,9%, enquanto as pessoas sem religião passaram de 7,9% para 9,3%.

Isso significa que uma comparação rigorosa entre 2010 e 2022 deve utilizar 21,7%, e não simplesmente colocar os 22,2% frequentemente citados para o conjunto populacional de 2010 ao lado dos 26,9% referentes à população de 10 anos ou mais em 2022.

Parece uma pequena diferença.

Metodologicamente, porém, ela é importante.

GRÁFICO 1 — A comparação brasileira metodologicamente correta

Brasil: composição religiosa entre pessoas de 10 anos ou mais — 2010 × 2022

O gráfico mostra três movimentos simultâneos:

Grupo 2010 2022 Mudança

Católicos: 65,0% em 2010 e 56,7% em 2022 — redução de 8,3 pontos percentuais.

Evangélicos: 21,7% em 2010 e 26,9% em 2022 — aumento de 5,2 pontos percentuais.

Sem religião: 7,9% em 2010 e 9,3% em 2022 — aumento aproximado de 1,4 ponto percentual.

O primeiro dado que merece atenção é que a redução católica foi maior do que o crescimento evangélico.

Isso significa que a transformação religiosa brasileira não pode ser descrita simplesmente como transferência de católicos para igrejas evangélicas.

Existe também diversificação religiosa e crescimento da população sem filiação.

3. Antes de continuar: protestante, evangélico, pentecostal e neopentecostal não significam a mesma coisa

Uma das maiores fontes de erro em análises religiosas é falar de “os evangélicos” como se estivéssemos diante de uma única instituição.

Não estamos.

O protestantismo reúne tradições que podem possuir teologia, liturgia, governo, comportamento político e cultura interna muito diferentes.

Presbiterianos possuem raízes reformadas e normalmente organização conciliar.

Batistas enfatizam a autonomia das igrejas locais e possuem sistemas de convenções cooperativas.

As Assembleias de Deus fazem parte da tradição pentecostal, mas nem sequer constituem uma estrutura administrativa nacional única e homogênea. O próprio site da CGADB mostra numerosas convenções estaduais e regionais espalhadas pelo país, inclusive múltiplas convenções dentro de um mesmo estado.

A Igreja Universal, por sua vez, representa uma forma institucional bastante diferente, muito mais centralizada e identificada com o desenvolvimento do neopentecostalismo brasileiro.

Portanto:

não existe uma única “igreja evangélica brasileira”.

Existe um campo evangélico.

E esse campo é internamente diverso.

Essa distinção será decisiva quando chegarmos à política.

4. Linha do tempo — como chegamos até aqui

A transformação não aconteceu de uma vez.

Ela ocorreu em etapas.

Anos 1980

O pentecostalismo cresce e a participação eleitoral evangélica se torna mais organizada. A antiga lógica de afastamento político começa a ser substituída pela representação institucional.

1986–1988

A forte presença evangélica na Assembleia Nacional Constituinte mostra que a atuação política religiosa deixou de ser um fenômeno marginal.

Anos 1990

O neopentecostalismo se expande com o rádio, a televisão e a Teologia da Prosperidade. A linguagem religiosa passa a dialogar fortemente com ideias de sucesso, cura, conquista e vida financeira.

Anos 2000

Ocorrem a expansão territorial acelerada dos templos e o fortalecimento das estruturas políticas. O evangelicalismo ganha capilaridade física e institucional.

Anos 2010

As redes sociais, a polarização política e o crescimento da bancada religiosa ampliam a comunicação direta de líderes religiosos com milhões de pessoas.

2020–2022

A pandemia, os cultos digitais, a intensificação das disputas políticas e a realização do Censo consolidam a convivência entre a religião presencial e a digital.

2023–2026

Novos dados revelam crescimento evangélico mais lento, avanço da população sem religião e profundas diferenças geracionais. A discussão deixa de ser apenas “quando os evangélicos serão maioria?” e passa a incluir pluralização e desfiliação.

A tabela mostra algo importante.

Os anos 1980 e 1990 foram, sobretudo, décadas de expansão.

Os anos 2000 e 2010 foram de consolidação institucional.

A década atual parece caminhar para uma fase diferente:

crescimento acompanhado de competição, pluralização e questionamento institucional.

5. Brasil: a mudança religiosa que transformou cidades inteiras

Até poucas décadas atrás, o Brasil possuía uma estrutura religiosa muito mais concentrada.

Dados históricos dos censos mostram a redução contínua da hegemonia católica e a expansão protestante/evangélica ao longo da segunda metade do século XX e começo do XXI. Estudos demográficos baseados nos censos registram essa mudança de maneira consistente.

Mas existe uma dimensão dessa transformação que os percentuais populacionais não conseguem mostrar:

o território.

Um estudo do Centro de Estudos da Metrópole, baseado em dados de estabelecimentos religiosos registrados na Receita Federal, reconstruiu a expansão das igrejas evangélicas entre 1920 e 2019.

Em 1970, a base identificava 1.049 templos evangélicos.

Em 1990, 17.033.

Em 2019, 109.560.

O estudo encontrou que o período entre 2000 e 2016 representou o ciclo de maior expansão da série, com forte participação pentecostal. Em 2019, foram identificados 48.781 estabelecimentos pentecostais, 22.400 classificados como igrejas missionárias e 12.825 neopentecostais.

Há uma limitação importante: os pesquisadores trabalham com estabelecimentos formalmente registrados e ativos na base utilizada. O próprio estudo reconhece que templos sem CNPJ podem ficar de fora e que estabelecimentos fechados antes da data final podem desaparecer da série.

Mesmo com essa ressalva, a escala da transformação permanece extraordinária.

6. O templo como infraestrutura social

Por que tantas igrejas conseguiram se estabelecer em bairros periféricos?

Uma explicação exclusivamente teológica é insuficiente.

Uma igreja local pode desempenhar simultaneamente várias funções.

Ela é espaço de culto.

É rede de amizade.

É lugar onde alguém procura aconselhamento.

É espaço em que circulam informações sobre emprego.

É comunidade para pessoas que chegaram recentemente a uma cidade.

Pode organizar distribuição de alimentos.

Pode visitar doentes.

Pode ajudar membros desempregados.

Pode formar redes de pequenos negócios.

Pode organizar jovens e crianças.

Pode oferecer acolhimento emocional.

Em bairros nos quais outras instituições possuem presença limitada, isso produz uma infraestrutura comunitária poderosa.

Essa dimensão ajuda a compreender por que a expansão pentecostal teve tamanho alcance entre populações urbanas e periféricas.

O templo não é apenas um endereço religioso.

Em diversos contextos, funciona como uma rede social física.

7. O primeiro grande ponto de virada: política

Existe uma imagem muito conhecida do evangelicalismo brasileiro antigo:

“crente não se mete em política”.

A expressão representa uma postura que de fato existiu em setores protestantes, mas não deve ser tratada como descrição absoluta.

Evangélicos participaram da vida política brasileira antes dos anos 1980.

O que mudou naquela década foi a escala e a organização dessa participação.

Na Assembleia Nacional Constituinte de 1987-1988, estudos acadêmicos identificam uma mobilização evangélica inédita, especialmente pentecostal, incluindo a estratégia de candidaturas apoiadas oficialmente por estruturas religiosas. A bancada evangélica da Constituinte reuniu 32 parlamentares segundo estudos do período.

A partir dali, uma pergunta tornou-se inevitável:

se decisões políticas afetam valores e interesses das igrejas, por que essas igrejas não deveriam eleger seus próprios representantes?

A resposta de grande parte do campo evangélico foi: deveriam.

8. Mas os evangélicos não votam todos da mesma maneira

Aqui aparece uma correção fundamental.

É comum falar em “voto evangélico” como se milhões de indivíduos obedecessem automaticamente a líderes religiosos.

A realidade é mais complexa.

Existem diferenças denominacionais, regionais, socioeconômicas, raciais e geracionais.

Há igrejas com capacidade muito forte de coordenar candidaturas.

Outras possuem estrutura descentralizada.

Algumas lideranças apoiam oficialmente candidatos.

Outras evitam fazê-lo.

E mesmo quando uma liderança recomenda um nome, os fiéis não necessariamente obedecem de maneira uniforme.

Estudos brasileiros mostram exatamente essa heterogeneidade.

Portanto, a existência de uma bancada evangélica não significa existência de um eleitorado totalmente homogêneo.

9. O que realmente mudou: capacidade organizacional

A grande mudança talvez não tenha sido simplesmente o interesse do fiel pela política.

Foi a criação de máquinas institucionais capazes de transformar pertencimento religioso em mobilização eleitoral.

Determinadas organizações desenvolveram capacidade para comunicar rapidamente uma candidatura a milhares ou milhões de pessoas.

Um culto pode divulgar uma ideia.

Uma rede de rádio amplifica.

A televisão nacional amplia ainda mais.

Redes sociais multiplicam.

Grupos de mensagens completam o circuito.

Essa infraestrutura modificou profundamente a relação entre religião e democracia no Brasil.

A participação religiosa deixou de acontecer apenas como decisão individual de cristãos interessados em política.

Passou também a envolver instituições com capacidade organizada de mobilização.

10. Da Constituinte à Frente Parlamentar Evangélica

A institucionalização dessa participação é hoje visível dentro do próprio Congresso Nacional.

A Frente Parlamentar Evangélica tornou-se uma estrutura formal de atuação parlamentar.

Mas é necessária outra cautela metodológica.

Assinar uma frente parlamentar não significa necessariamente possuir a mesma teologia, a mesma denominação ou as mesmas posições em todas as questões.

Frentes parlamentares são coalizões políticas.

Portanto, não devemos tratar cada assinatura como prova de uniformidade religiosa.

Essa ressalva é essencial para não transformar diversidade em caricatura.

11. O segundo grande ponto de virada: a Teologia da Prosperidade

Nos anos 1990, determinados segmentos neopentecostais ampliaram uma linguagem religiosa que relacionava fé a transformação concreta das condições de vida.

Palavras como vitória, conquista, prosperidade, libertação e sucesso ganharam enorme força.

Nesse contexto, prosperidade financeira não era tratada apenas como resultado possível da vida.

Podia assumir significado espiritual.

Essa mensagem encontrou uma sociedade marcada por instabilidade econômica, mudanças no mercado de trabalho e ascensão de uma cultura cada vez mais orientada a desempenho e consumo.

Não significa que todos os pentecostais adotaram a Teologia da Prosperidade.

Muito menos que todo protestantismo brasileiro passou a ensinar a mesma coisa.

A categoria é especialmente associada a segmentos neopentecostais e possui enorme diversidade interna.

12. Dinheiro, fé e a área de maior controvérsia

Poucos temas provocam tanta reação quanto dinheiro dentro da religião.

Os defensores de campanhas financeiras podem argumentar que ofertas são parte da liberdade religiosa, que igrejas precisam financiar suas atividades e que doações representam compromisso de fé.

Críticos respondem que existe risco de exploração quando autoridade espiritual é usada para prometer benefícios materiais em troca de contribuições.

Os dois argumentos precisam ser examinados.

O problema não está simplesmente na existência de ofertas.

Praticamente toda instituição religiosa depende de contribuições.

A questão ética surge quando existe uma combinação de:

assimetria de poder + vulnerabilidade econômica + promessa espiritual + pressão financeira.

Quanto maior essa combinação, maior o risco.

13. Comparação denominacional: por que não podemos colocar todos no mesmo grupo

Este é um dos pontos que faltavam na pesquisa anterior.

Batistas

Organizam-se, em geral, como igrejas locais com elevada autonomia e convenções cooperativas. Pertencem ao protestantismo missionário ou histórico e continuam importantes, mas não explicam, sozinhas, o grande crescimento evangélico brasileiro. O termo “batista” reúne diferentes convenções e orientações.

Presbiterianos

Possuem governo por concílios, presbitérios e sínodos, com raízes na tradição reformada histórica. Seu crescimento tende a ser mais gradual e institucional. Não representam todo o protestantismo reformado.

Assembleias de Deus

Integram o pentecostalismo clássico e foram uma das forças centrais da expansão pentecostal brasileira. Apesar da grande capilaridade, não constituem uma organização única e centralizada: existem múltiplos ministérios e convenções, e a CGADB reúne numerosas convenções.

Igreja Universal

Apresenta uma estrutura significativamente mais centralizada, associada ao neopentecostalismo, ao uso precoce da mídia e à participação política. Dados de alcance nacional e internacional divulgados pela própria igreja devem ser identificados como informações autodeclaradas.

Igrejas independentes e não denominacionais

Reúnem estruturas extremamente variadas e representam um fenômeno crescente no mundo contemporâneo. Podem crescer sem vínculo formal com denominações antigas, mas são difíceis de medir porque a própria categoria é fragmentada.

O quadro demonstra por que expressões como “a igreja evangélica decidiu...” são frequentemente inadequadas.

Qual igreja?

Qual convenção?

Qual liderança?

Qual contexto?

Quanto mais rigorosa a pergunta, melhor a resposta.

14. O terceiro ponto de virada: a sociedade digital

A expansão das redes sociais alterou profundamente o poder religioso.

Antes, para alcançar milhões de pessoas, uma igreja precisava comprar horário de rádio ou televisão.

Hoje, um vídeo pode chegar a milhões sem passar por uma emissora.

Isso democratizou a comunicação religiosa.

Mas também fragmentou a autoridade.

Um pastor local pode construir uma audiência maior do que a própria denominação.

Um influenciador cristão pode possuir mais poder de comunicação do que líderes institucionais tradicionais.

Um fiel pode frequentar presencialmente uma igreja e, ao mesmo tempo, formar sua teologia por dezenas de líderes digitais que nunca encontrou.

Essa transformação ainda está sendo compreendida.

Talvez a grande mudança do século XXI não seja apenas o surgimento da “igreja online”.

É o surgimento de uma espécie de religião em rede.

15. América Latina: não estamos simplesmente assistindo à substituição do catolicismo pelo protestantismo

Durante anos, uma narrativa ganhou força:

a América Latina deixaria de ser católica e se tornaria protestante.

Os dados atuais mostram uma realidade mais complexa.

Uma grande pesquisa do Pew publicada em janeiro de 2026 examinou Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru.

Católicos continuam sendo o maior grupo em todos os seis países pesquisados, variando de 46% dos adultos no Brasil e Chile a 67% no México e Peru.

Os protestantes variam de apenas 9% no México a 29% no Brasil.

Mas o dado mais importante talvez seja outro:

em Argentina, Chile, Colômbia e México, os sem religião já são numericamente mais numerosos do que os protestantes.

GRÁFICO 2 — América Latina

Isso altera completamente a interpretação da transição religiosa.

Não estamos observando apenas:

católico → protestante.

Estamos observando simultaneamente:

católico → protestante;

católico → sem religião;

protestante → sem religião;

e inúmeras outras formas de mudança.

16. O Brasil é diferente de seus vizinhos

O Brasil apresenta uma característica excepcional dentro do levantamento do Pew.

Entre os adultos brasileiros, 13% dizem ter sido criados como católicos e hoje se identificam como protestantes.

Outros 7% foram criados como católicos e hoje são sem religião.

Entre os seis países analisados, o Brasil é o único em que significativamente mais ex-católicos passaram para o protestantismo do que para a condição sem filiação religiosa.

Isso significa que a capacidade de atração do protestantismo brasileiro permanece muito relevante.

Mas não é ilimitada.

A desfiliação também cresce.

17. O dado que muda tudo: juventude

Talvez nenhuma variável seja tão importante para prever o futuro religioso quanto idade.

O Pew encontrou nos seis países latino-americanos pesquisados um padrão consistente:

adultos mais jovens têm menor probabilidade de se identificar como católicos e maior probabilidade de não possuir religião.

Ao mesmo tempo, o percentual protestante não apresenta em todos os países a mesma diferença geracional estatisticamente significativa.

Isso é extremamente importante.

Se os mais jovens estivessem apenas trocando catolicismo por protestantismo, poderíamos falar em substituição denominacional.

Mas os dados indicam que parte da juventude está fazendo algo diferente:

afastando-se da filiação religiosa institucional.

18. Sem religião não significa necessariamente sem fé

Aqui encontramos outro erro frequente.

“Sem religião” não significa automaticamente “ateu”.

O levantamento latino-americano do Pew mostra que crenças espirituais permanecem extremamente difundidas mesmo onde a filiação institucional caiu.

No Brasil, por exemplo, a crença em Deus permanece excepcionalmente alta inclusive entre diferentes faixas etárias. O Pew encontrou 98% tanto entre adultos brasileiros de 18 a 34 anos quanto entre os de 50 anos ou mais dizendo acreditar em Deus.

Isso significa que o futuro religioso brasileiro pode não ser simplesmente:

religião versus ateísmo.

Pode ser:

instituição versus espiritualidade individualizada.

Uma pessoa pode acreditar em Deus.

Pode orar.

Pode acreditar em vida após a morte.

Pode até possuir valores profundamente cristãos.

E ainda assim responder:

“Não tenho religião.”

Essa distinção será cada vez mais importante.

19. Estados Unidos: o laboratório do poder religioso moderno

O caso norte-americano ajuda a compreender o que pode acontecer quando religião e política partidária se tornam fortemente associadas.

Durante os anos 1980, movimentos da chamada Christian Right contribuíram para aproximar evangélicos conservadores do Partido Republicano.

Questões como aborto, valores familiares, educação e religião no espaço público ganharam enorme força política.

Essa mobilização ajudou a transformar o evangelicalismo em um dos blocos eleitorais mais importantes dos Estados Unidos.

Mas décadas depois surgiu um paradoxo.

A influência política continuou enorme.

A confiança institucional não.

20. O cristianismo norte-americano não está simplesmente desaparecendo

É importante não exagerar.

A Religious Landscape Study 2023-24 do Pew encontrou que cerca de 62% dos adultos norte-americanos ainda se identificavam como cristãos.

Aproximadamente quatro em cada dez adultos eram protestantes.

Além disso, a longa queda da identificação cristã parece ter desacelerado nos anos mais recentes.

O percentual protestante também tem permanecido relativamente estável, entre aproximadamente 40% e 42%, desde 2019.

Portanto, seria incorreto escrever:

“O cristianismo está acabando nos Estados Unidos.”

Os dados não sustentam essa frase.

21. Mas as grandes tradições perderam espaço

Quando ampliamos o período, entretanto, a mudança é evidente.

Em 2007, evangélicos representavam aproximadamente 26% dos adultos norte-americanos.

Em 2023-24, 23%.

Os protestantes mainline passaram de 18% para 11%.

Os protestantes historicamente negros passaram de aproximadamente 7% para 5%.

GRÁFICO 3 — Estados Unidos: grandes tradições protestantes

Existe uma exceção particularmente interessante.

Os protestantes não denominacionais representam aproximadamente 7% dos adultos norte-americanos e constituem a única grande família protestante que aparece maior proporcionalmente na pesquisa atual do que na primeira Religious Landscape Study de 2007.

Talvez a instituição religiosa não esteja simplesmente desaparecendo.

Talvez sua forma esteja mudando.

22. O caso da Southern Baptist Convention

A Convenção Batista do Sul oferece um excelente estudo de caso.

Segundo os próprios dados oficiais da denominação, em 2024 sua rede reunia:

46.876 igrejas cooperantes;

12.722.266 membros;

aproximadamente 4,3 milhões de pessoas com frequência presencial semanal;

e cerca de 250 mil batismos reportados no ano.

O número de membros é muito inferior ao patamar de mais de 16 milhões registrado em meados dos anos 2000.

Mas existe uma informação importante dentro do próprio dado atual.

12,7 milhões de membros registrados não equivalem a 12,7 milhões de pessoas presentes semanalmente.

A frequência presencial semanal informada é de aproximadamente 4,3 milhões.

Essa diferença revela por que precisamos distinguir:

afiliação;

registro denominacional;

participação real.

Esse cuidado deveria ser aplicado a qualquer denominação.

23. O gráfico mais perturbador de toda a pesquisa

Talvez nenhum dado mostre melhor a transformação norte-americana do que a série do Gallup sobre confiança na “igreja ou religião organizada”.

Em 1975, o índice era de aproximadamente 68%.

Em 2022, chegou a 31%.

Em 2024, ficou em 32%.

Em 2025, subiu para 36%.

Em 2026, está em 33%.

GRÁFICO 4 — Confiança na religião organizada

Aqui precisamos ser extremamente precisos.

O Gallup pergunta sobre “church or organized religion”, não exclusivamente sobre igrejas evangélicas.

Portanto, não podemos afirmar:

“os evangélicos perderam 35 pontos de confiança”.

Isso seria estatisticamente incorreto.

O que podemos afirmar é:

a confiança dos norte-americanos na religião organizada como instituição sofreu uma queda histórica.

E isso aconteceu durante um período no qual a religião conservadora adquiriu enorme visibilidade política.

24. Correlação não prova causa — mas o paradoxo merece atenção

É tentador concluir:

“a política destruiu a confiança na igreja”.

Os dados apresentados até aqui não permitem provar sozinhos uma causalidade tão simples.

A queda de confiança pode envolver muitos fatores:

escândalos;

mudança cultural;

secularização;

polarização;

casos de abuso;

alteração geracional;

desconfiança geral em instituições;

e associação político-partidária.

Provavelmente existe uma combinação desses fatores.

Mas existe um fato difícil de ignorar:

poder político e confiança pública não caminharam necessariamente na mesma direção.

Esse é um alerta que ultrapassa as fronteiras norte-americanas.

25. África: o centro de gravidade do cristianismo mudou

Por séculos, a Europa ocupou posição central na história institucional do cristianismo.

Esse centro demográfico já não existe da mesma maneira.

O Pew estima que a população cristã da África Subsaariana alcançou aproximadamente 697 milhões de pessoas em 2020, crescimento de cerca de 31% em relação a 2010.

Na Europa, o número de cristãos caiu aproximadamente 9% no mesmo período, chegando a cerca de 505 milhões.

Em 2020, aproximadamente 31% dos cristãos do mundo viviam na África Subsaariana, contra cerca de 22% na Europa.

GRÁFICO 5 — A nova geografia mundial do cristianismo

Esse é um daqueles números capazes de alterar nossa percepção da história.

O cristianismo contemporâneo é cada vez menos exclusivamente europeu ou norte-americano.

Seu futuro será profundamente africano, latino-americano e asiático.

26. Mas crescimento africano não significa apenas conversão

Outro cuidado é indispensável.

A população da África Subsaariana também está crescendo rapidamente.

A região possui população mais jovem e taxas de fecundidade superiores às europeias.

Portanto, grande parte do crescimento cristão africano é demográfico.

O próprio Pew identifica crescimento natural como componente central dessa mudança global, juntamente com a desfiliação cristã observada em regiões ocidentais.

Assim:

mais cristãos não significa necessariamente milhões de novas conversões.

Pode significar também que populações cristãs jovens estão tendo mais filhos e vivendo em regiões de rápido crescimento populacional.

27. O pentecostalismo africano e a promessa de transformação

Dentro desse cenário, o pentecostalismo conquistou enorme espaço.

Em vários países, especialmente em áreas urbanas, igrejas pentecostais e carismáticas oferecem uma mensagem centrada em transformação individual, esperança, cura, intervenção divina, libertação e prosperidade.

Essa mensagem possui forte capacidade de dialogar com populações que vivem em contextos de insegurança econômica ou institucional.

Pesquisadores também têm estudado como determinadas comunidades pentecostais influenciam comportamento, disciplina, consumo de álcool, trabalho, redes sociais e empreendedorismo.

Mas novamente:

não podemos transformar associação em regra universal.

Uma igreja pode incentivar disciplina econômica.

Outra pode desenvolver práticas financeiras abusivas.

As duas podem ser classificadas genericamente como pentecostais.

Por isso, a generalização é perigosa.

28. A pergunta africana também é uma pergunta brasileira

O crescimento de líderes carismáticos altamente centralizadores produziu outra discussão:

quais são os limites da autoridade espiritual?

Se um líder afirma falar em nome de Deus, quem pode questioná-lo?

Se questionar o pastor passa a ser interpretado como questionar Deus, existe um problema estrutural.

Isso não é exclusivamente africano.

Também não é exclusivamente pentecostal.

É um problema possível em qualquer estrutura religiosa excessivamente personalista.

A questão central é governança.

Uma instituição saudável precisa possuir mecanismos capazes de responder:

Quem fiscaliza o dinheiro?

Quem investiga uma denúncia?

Quem pode contrariar o líder?

Como as vítimas são protegidas?

Existe um plano de sucessão institucional?

Há transparência?

Autoridade sem prestação de contas é sempre um risco — religiosa ou não.

29. Europa: a outra face da transformação

Enquanto o número de cristãos cresce intensamente na África Subsaariana, grande parte da Europa Ocidental percorre trajetória oposta.

Na Inglaterra e no País de Gales, o Censo de 2021 registrou uma mudança histórica.

Em 2011, 59,3% da população se identificava como cristã.

Em 2021, 46,2%.

Foi a primeira vez que menos da metade da população declarou identidade cristã em um censo da região.

Enquanto isso, “sem religião” passou de 25,2% para 37,2%.

Isso não significa necessariamente que 37,2% sejam ateus militantes.

Novamente, estamos falando de autoidentificação religiosa.

Mas a transformação cultural é inequívoca.

30. França: quando “sem religião” se torna majoritário

Uma pesquisa oficial conduzida pelo INSEE e INED encontrou que, em 2019-2020, 51% das pessoas de 18 a 59 anos na França metropolitana declaravam não possuir religião.

Católicos representavam aproximadamente 29%.

Muçulmanos, 10%.

Outros cristãos, aproximadamente 9%.

Existe outro dado revelador.

Entre os católicos, somente cerca de 8% declaravam frequentar regularmente um local de culto, enquanto a participação regular era superior a 20% entre outros grupos cristãos e muçulmanos.

Isso mostra novamente a diferença entre:

identidade religiosa e prática religiosa.

Alguém pode responder “católico” culturalmente e quase nunca participar de uma igreja.

31. Alemanha: a desfiliação aparece nos registros administrativos

Na Alemanha, a Evangelische Kirche in Deutschland fornece outro tipo de dado: o número institucional de membros.

Ao final de 2025, a EKD registrava 17.392.072 membros, distribuídos pelas suas vinte igrejas regionais.

A própria instituição informou que a redução anual permaneceu em cerca de 3,2%.

Esse é um caso interessante porque a queda não aparece apenas em pesquisas de opinião.

Ela aparece nos registros administrativos da própria igreja.

32. Secularização não significa desaparecimento de todo papel social

Seria um erro concluir que igrejas europeias se tornaram socialmente irrelevantes apenas porque perderam membros.

Instituições religiosas continuam administrando escolas, hospitais, serviços sociais, assistência a idosos, acolhimento de migrantes e inúmeras organizações filantrópicas.

A própria EKD, ao divulgar a redução do número de membros, destaca a extensa atuação de igrejas e da Diakonie em escolas, creches, aconselhamento, assistência médica e apoio social.

Portanto, pode existir:

declínio de filiação + permanência de importância social.

Outra aparente contradição que desaparece quando medimos coisas diferentes.

33. O outro lado da discussão

A esta altura, precisamos confrontar diretamente algumas das questões mais controversas.

Participação política

Os defensores lembram que cristãos possuem os mesmos direitos democráticos de qualquer grupo e podem defender seus valores. Os críticos alertam que misturar púlpito e partido pode transformar autoridade espiritual em instrumento eleitoral. Os dados permitem concluir que a participação é legítima, mas o risco depende da forma de mobilização, do grau de coerção e da relação institucional.

Teologia da Prosperidade

Defensores afirmam que a fé pode incentivar esperança, trabalho, disciplina, generosidade e transformação pessoal. Críticos apontam que pessoas vulneráveis podem sofrer pressão financeira por meio de promessas religiosas. Não é possível julgar todo o movimento por uma única fórmula; práticas concretas precisam ser examinadas.

Crescimento pentecostal

Igrejas oferecem comunidade, pertencimento e transformação de vida. Ao mesmo tempo, o crescimento pode ser acompanhado por fragmentação, personalismo ou estruturas pouco transparentes. Benefícios comunitários e riscos institucionais podem existir simultaneamente.

Secularização

Ela pode representar liberdade individual para escolher ou abandonar uma religião, mas também pode enfraquecer comunidades, a transmissão religiosa e instituições de solidariedade. O fenômeno não é simplesmente “progresso” nem “decadência”: produz ganhos e perdas sociais diferentes.

Atuação social

Igrejas suprem necessidades que o Estado e o mercado nem sempre atendem. Contudo, a assistência também pode ser utilizada para ampliar dependência ou influência. Por isso, é necessário analisar resultados concretos, transparência e os direitos das pessoas atendidas.

Influência moral

A presença cristã no debate público pode defender princípios e grupos vulneráveis. Porém, a identificação excessiva com projetos partidários pode comprometer a universalidade da mensagem religiosa. Poder político e confiança pública precisam ser medidos separadamente.

Essa tabela talvez seja uma das partes mais importantes do estudo.

Ela impede que a pesquisa se transforme em propaganda religiosa ou em ataque à religião.

34. O dado que muda tudo: crescimento não é uma única variável

Imagine uma igreja que diz:

“Crescemos 20%”.

O que exatamente cresceu?

Membros cadastrados?

Frequência semanal?

Número de templos?

Receita?

Seguidores nas redes sociais?

Batismos?

Alcance televisivo?

Influência política?

Assistência social?

Esses indicadores não são equivalentes.

Uma denominação pode perder membros registrados e aumentar a frequência em determinadas congregações.

Pode ganhar seguidores digitais e fechar templos.

Pode aumentar poder político e perder confiança pública.

Pode possuir milhões de membros culturais e poucos participantes ativos.

Por isso, toda vez que alguém disser:

“A igreja está crescendo”, pergunte:

“Em qual indicador?”

35. Você sabia? O crescimento evangélico brasileiro também é um fenômeno geográfico

O levantamento do Centro de Estudos da Metrópole identificou que, apenas em 2019, foram abertos 6.356 estabelecimentos evangélicos na base analisada — média aproximada de 17 por dia.

Isso ajuda a entender por que o crescimento se tornou tão visível.

Não era apenas uma mudança estatística silenciosa.

Novos templos apareciam fisicamente nas ruas.

A presença religiosa tornou-se parte da paisagem.

36. Cuidado com esta interpretação: “os evangélicos serão maioria”

Durante anos, receberam grande atenção as projeções que sugeriam quando os evangélicos poderiam superar numericamente os católicos no Brasil.

Projeções demográficas podem ser úteis.

Mas não são profecias.

Elas normalmente pressupõem que determinadas taxas de mudança continuarão.

Se essas taxas diminuírem, o ano projetado muda.

O Censo de 2022 mostrou crescimento evangélico e redução católica, mas também mostrou desacelerações e aumento de outras identidades.

Portanto, afirmar:

“os evangélicos serão maioria em determinado ano”

é muito mais forte do que os dados permitem afirmar com certeza.

A formulação correta seria:

“determinados modelos, baseados em determinadas tendências, projetaram esse cenário.”

37. Cuidado com outra interpretação: “os jovens estão abandonando Deus”

Os dados também não sustentam uma conclusão tão simples.

No Brasil e em outros países latino-americanos, jovens apresentam maior probabilidade de não possuir filiação religiosa.

Mas o Pew mostra que crenças espirituais permanecem muito difundidas.

No Brasil, como vimos, 98% tanto dos adultos de 18 a 34 quanto dos de 50 anos ou mais disseram acreditar em Deus no levantamento de 2024.

O que pode estar enfraquecendo não é necessariamente a crença.

Pode ser a lealdade institucional.

Essa diferença é enorme.

38. Juventude: talvez aqui esteja o futuro de toda a pesquisa

Nos Estados Unidos, o Pew encontrou outro padrão preocupante para instituições religiosas.

Nenhuma coorte recente de nascimento apresentou uma tendência consistente de se tornar mais religiosa simplesmente por envelhecer.

A capacidade de uma educação religiosa de permanecer com a pessoa na vida adulta também parece menor entre gerações jovens, enquanto crescer sem religião parece cada vez mais “pegajoso”, isto é, mais provável de permanecer na vida adulta.

Outra pesquisa do Pew encontrou que 73% dos norte-americanos criados sem religião continuam sem filiação religiosa na vida adulta. Entre os menores de 30 anos criados sem religião, apenas cerca de 20% passaram posteriormente a se identificar com uma religião, enquanto essa proporção é muito maior entre gerações mais velhas.

Isso tem enorme implicação.

Durante décadas, algumas instituições presumiram:

“os jovens se afastam, mas quando casarem e tiverem filhos voltarão.”

Os dados atuais tornam essa hipótese menos segura.

39. América Latina: o mesmo sinal aparece

Nos seis países latino-americanos analisados pelo Pew, adultos jovens são sistematicamente menos católicos e mais frequentemente sem religião do que adultos mais velhos.

Ao mesmo tempo, não aparece um crescimento jovem protestante de magnitude suficiente para concluir que toda essa perda católica esteja sendo absorvida por igrejas protestantes.

Isso significa que o grande concorrente das igrejas no século XXI talvez não seja outra denominação.

Pode ser:

não pertencer a nenhuma.

40. O futuro religioso não será decidido apenas no púlpito

Se essa interpretação estiver correta, igrejas enfrentarão um desafio diferente.

Durante grande parte da história moderna brasileira, competição religiosa significava:

católico versus protestante;

tradicional versus pentecostal;

pentecostal versus neopentecostal;

uma denominação versus outra.

A nova competição pode ser:

instituição religiosa versus autonomia espiritual individual.

O jovem contemporâneo pode perguntar:

“Por que preciso de uma instituição para acreditar?”

Essa pergunta é muito diferente daquela enfrentada pelas igrejas nos anos 1980.

41. O que ainda não sabemos

Uma pesquisa realmente séria também precisa declarar suas limitações.

Primeira limitação: categorias internacionais não são idênticas. “Protestant” no Pew norte-americano não corresponde perfeitamente a “evangélico” no IBGE brasileiro.

Segunda: pertencimento não mede intensidade da fé.

Terceira: frequência não mede caráter.

Quarta: crescimento institucional não mede impacto espiritual.

Quinta: opinião política de um grupo não significa que todos os indivíduos daquele grupo concordem.

Sexta: estudos que identificam associação entre religião e resultados econômicos não provam que conversão religiosa, isoladamente, produza prosperidade.

Sétima: números fornecidos pelas próprias denominações são úteis, mas representam registros institucionais e precisam ser identificados como tais.

Oitava: “sem religião” é uma categoria extremamente heterogênea, reunindo ateus, agnósticos, pessoas espirituais sem vínculo institucional e indivíduos que simplesmente rejeitam rótulos.

Reconhecer essas limitações não enfraquece a pesquisa.

Faz o contrário.

Torna-a mais confiável.

42. O que podemos afirmar com elevado grau de segurança

Depois de todas essas ressalvas, ainda existem algumas conclusões muito robustas.

O Brasil passou por uma profunda transição religiosa.

O catolicismo perdeu a posição quase monopolística que possuía.

O evangelicalismo cresceu dramaticamente e ganhou enorme capilaridade territorial.

O pentecostalismo foi uma das principais forças dessa transformação.

Determinados grupos evangélicos desenvolveram sofisticadas estruturas de participação política.

O campo evangélico permanece internamente muito heterogêneo.

A América Latina está se tornando religiosamente mais plural, não simplesmente protestante.

A desfiliação religiosa cresce especialmente entre jovens.

Nos Estados Unidos, a participação relativa de grandes tradições protestantes caiu no longo prazo, embora existam sinais recentes de estabilização geral.

A confiança na religião organizada caiu fortemente.

A Europa Ocidental atravessa secularização profunda.

A África Subsaariana tornou-se o maior centro demográfico do cristianismo mundial.

Todas essas afirmações possuem suporte empírico muito mais forte do que slogans como:

“a igreja está acabando”

ou

“o mundo está se tornando evangélico”.

43. A grande descoberta: estamos diante de uma redistribuição, não de uma única tendência

Talvez a melhor maneira de descrever o cristianismo contemporâneo seja:

redistribuição.

Redistribuição geográfica.

A Europa perde participação enquanto a África ganha.

Redistribuição denominacional.

Igrejas históricas diminuem em alguns países enquanto movimentos independentes e pentecostais crescem.

Redistribuição institucional.

Pessoas deixam grandes estruturas e buscam comunidades menores ou não denominacionais.

Redistribuição política.

Grupos anteriormente afastados do poder aprendem a transformar identidade religiosa em representação eleitoral.

Redistribuição da autoridade.

O pastor não compete mais apenas com outro pastor.

Compete com YouTube, podcasts, influenciadores, inteligência artificial, redes sociais e milhares de interpretações disponíveis instantaneamente.

E redistribuição da própria identidade.

Uma pessoa pode dizer:

“sou cristã, mas não tenho igreja.”

Essa frase talvez seja uma das mais importantes para entender o século XXI.

44. Crescimento, influência e confiança: as três perguntas que não podem ser confundidas

A primeira pergunta é:

A igreja está crescendo?

Em diversas partes do mundo, sim.

No Brasil, o percentual evangélico aumentou.

Na África Subsaariana, a população cristã cresceu enormemente.

Determinadas igrejas independentes também estão crescendo em países ocidentais.

A segunda pergunta é:

A igreja está influenciando?

Também sim.

No Brasil e nos Estados Unidos, setores religiosos possuem grande presença política.

Na África, igrejas desempenham papéis sociais e comunitários importantes.

Na Europa, instituições cristãs ainda administram redes significativas de assistência social.

Mas existe uma terceira pergunta:

A igreja está sendo considerada confiável?

Aqui a resposta se torna muito mais complicada.

E essa talvez seja a pergunta mais importante.

45. É possível crescer e perder confiança ao mesmo tempo?

Sim.

Não existe nenhuma contradição estatística nisso.

Uma instituição pode conquistar mais membros e ser rejeitada por uma parcela maior das pessoas externas a ela.

Pode aumentar sua força eleitoral e intensificar simultaneamente a oposição de quem discorda.

Pode ampliar audiência e tornar-se mais polarizadora.

Pode conquistar visibilidade sem conquistar respeito.

Esse é o ponto no qual crescimento e credibilidade se separam.

E talvez muitas igrejas tenham aprendido a medir o primeiro sem aprender a medir o segundo.

46. Poder é mais fácil de medir que autoridade moral

É relativamente simples contar votos.

Contar deputados.

Contar templos.

Contar seguidores.

Contar membros.

Contar dinheiro.

Contar visualizações.

Mas como contamos integridade?

Como medimos confiança?

Como avaliamos o efeito de uma igreja sobre uma família?

Como calculamos reconciliações?

Como registramos pessoas que abandonaram vícios?

Como medimos alguém que perdeu a fé por causa de um escândalo?

Como colocamos caráter numa planilha?

Esse é o limite inevitável de uma pesquisa quantitativa.

Os números são essenciais.

Mas não contam toda a história.

47. O problema de transformar sucesso religioso em métricas empresariais

Existe um risco particular quando organizações religiosas absorvem completamente a linguagem corporativa.

Metas.

Performance.

Expansão.

Market share.

Audiência.

Resultados.

Engajamento.

Crescimento.

Essas métricas são úteis para administrar organizações.

O problema surge quando passam a definir sucesso espiritual.

Uma igreja pode ser excepcionalmente eficiente como organização e profundamente deficiente em sua missão religiosa.

Pode possuir excelente marketing.

Excelente arrecadação.

Excelente capacidade eleitoral.

Excelente comunicação.

E ainda assim fracassar no critério que sua própria fé considera central.

É aqui que a análise sociológica precisa parar e a reflexão teológica começa.

48. A pergunta que nenhum Censo consegue responder

O IBGE consegue dizer quantas pessoas se declaram evangélicas.

Não consegue dizer quantas vivem de acordo com aquilo que professam.

O Pew consegue medir crenças e práticas.

Não consegue medir completamente o caráter.

O Gallup consegue medir confiança.

Não consegue determinar fidelidade a Deus.

A Southern Baptist Convention consegue contar membros e batismos.

A EKD consegue contar desligamentos.

Nenhum desses bancos de dados consegue responder:

Essa igreja é fiel ao Evangelho?

Essa é uma pergunta de outra natureza.

E precisa ser claramente separada das conclusões estatísticas.

49. A reflexão bíblica: qual métrica Jesus utilizaria?

Quando chegamos ao Novo Testamento, encontramos uma lógica surpreendentemente diferente das métricas institucionais modernas.

Jesus declara em Mateus 7:16:

“Pelos seus frutos os conhecereis.”

O critério apresentado não é tamanho.

Não é orçamento.

Não é número de templos.

Não é quantidade de seguidores.

Não é influência política.

É fruto.

Em Marcos 10:42-45, Jesus contrapõe dois modelos de autoridade.

De um lado, governantes que dominam.

Do outro, discípulos chamados a servir.

Isso introduz uma tensão radical na discussão sobre poder religioso.

Quanto mais poderosa uma igreja se torna, mais importante é perguntar:

esse poder está sendo usado para servir ou para dominar?

50. Imagine Jesus avaliando nossas estatísticas

Imagine apresentar a Jesus um relatório moderno:

“Construímos mil templos.”

“Quantas pessoas vocês serviram?”

“Temos milhões de seguidores.”

“Como vocês trataram os vulneráveis?”

“Elegemos dezenas de representantes.”

“Eles foram justos?”

“Arrecadamos milhões.”

“O que vocês fizeram com os recursos?”

“Nossa audiência cresceu.”

“Seus frutos cresceram?”

É uma imagem hipotética.

Mas revela a diferença entre sucesso institucional e sucesso segundo os critérios do próprio cristianismo.

51. O maior risco não é perder espaço político

Grande parte da discussão religiosa contemporânea gira em torno de perda de espaço.

Perder influência.

Perder leis.

Perder eleições.

Perder cultura.

Perder membros.

Mas a história apresentada neste estudo sugere que pode existir algo mais perigoso:

perder credibilidade.

Uma eleição pode ser recuperada quatro anos depois.

Uma denominação pode recuperar membros.

Uma igreja pode reconstruir um prédio.

Uma campanha financeira pode recuperar dinheiro.

Confiança funciona de maneira diferente.

Ela pode levar décadas para ser construída.

E minutos para ser destruída.

52. A era digital tornou a coerência mais importante do que nunca

Nunca foi tão fácil divulgar uma mensagem cristã.

E nunca foi tão difícil controlar as consequências de uma incoerência pública.

Um sermão pode ser gravado.

Uma declaração antiga pode reaparecer.

Uma promessa pode ser comparada com o resultado real.

Uma denúncia pode atravessar o planeta.

Um comportamento contraditório pode alcançar milhões de pessoas antes de uma instituição preparar uma resposta.

A tecnologia ampliou o púlpito.

Mas também ampliou a fiscalização.

Essa talvez seja uma das maiores mudanças religiosas do nosso tempo.

53. A igreja do futuro precisará responder perguntas que a igreja dos anos 1980 quase não enfrentava

Nos anos 1980, uma igreja poderia perguntar:

“Como evangelizamos este bairro?”

Hoje precisa perguntar também:

“Como protegemos dados?”

“Como tratamos uma denúncia pública?”

“Como comunicamos nas redes sociais?”

“Como impedimos abuso de autoridade?”

“Como prestamos contas financeiramente?”

“Como lidamos com inteligência artificial?”

“Como falamos com alguém que acredita em Deus, mas rejeita instituições religiosas?”

“Como dialogamos com jovens que não sentem obrigação de permanecer na religião recebida dos pais?”

O desafio mudou.

Portanto, os métodos também precisarão mudar.

54. O século XXI provavelmente não será decidido por quem construir mais templos

Os templos continuarão importantes.

Mas a competição pela confiança acontecerá em outros lugares.

Nas redes.

Na transparência.

Na ética.

No tratamento dado às vítimas.

Na administração financeira.

Na relação entre líderes e poder.

Na coerência entre discurso e prática.

Na capacidade de ouvir.

Na maneira como as igrejas tratarão pessoas que discordam.

Na capacidade de reconhecer erros sem transformá-los automaticamente em perseguição religiosa.

Isso poderá determinar a credibilidade das próximas gerações.

55. O cenário mais provável não é o desaparecimento da religião

Os dados globais não apontam para um planeta simplesmente se tornando irreligioso.

Existem regiões fortemente secularizadas.

Mas existem também regiões de intenso crescimento religioso.

A África Subsaariana é o exemplo mais evidente.

A América Latina continua profundamente marcada pelo cristianismo.

Mesmo muitos latino-americanos sem religião mantêm crenças espirituais.

Nos Estados Unidos, o declínio cristão recente mostra sinais de estabilização.

Portanto, o futuro provavelmente não será:

religião ou nenhuma religião.

Será muito mais complexo.

Teremos religiões tradicionais.

Pentecostalismo.

Igrejas independentes.

Cristãos sem denominação.

Pessoas espirituais sem instituição.

Ateus.

Agnósticos.

Identidades híbridas.

E uma competição cada vez maior pela atenção, pertencimento e confiança das pessoas.

56. A questão definitiva

Depois de décadas olhando para crescimento, talvez estejamos fazendo a pergunta errada.

Durante muito tempo perguntamos:

Quantos evangélicos existirão?

Talvez devêssemos perguntar:

Que tipo de evangelicalismo existirá?

Perguntamos:

Quantas igrejas serão abertas?

Talvez devêssemos perguntar:

Que tipo de comunidade existirá dentro delas?

Perguntamos:

Quantos políticos evangélicos serão eleitos?

Talvez devêssemos perguntar:

Que diferença ética sua fé produzirá quando chegarem ao poder?

Perguntamos:

Quanto a igreja crescerá?

Talvez devêssemos perguntar:

Quanto a sociedade confiará nela quando crescer?

Conclusão — O futuro não será decidido apenas pelos números

Dos anos 1980 aos dias atuais, o protestantismo mudou profundamente.

No Brasil, aquilo que era uma minoria religiosa tornou-se uma força demográfica, social, cultural, midiática e política.

O pentecostalismo ajudou a transformar a paisagem das cidades.

O neopentecostalismo introduziu novas linguagens sobre poder, prosperidade e transformação.

A política deixou de ser território evitado por grande parte dos evangélicos e tornou-se área estratégica de atuação.

A televisão ampliou o púlpito.

A internet praticamente eliminou suas fronteiras.

Mas, enquanto isso, outra transformação estava ocorrendo.

O catolicismo deixou de possuir a hegemonia de outras épocas.

A população sem religião cresceu.

Os jovens passaram a se relacionar de maneira diferente com instituições.

Nos Estados Unidos, denominações perderam milhões de membros.

Na Europa, países que foram durante séculos centros do cristianismo tornaram-se sociedades amplamente secularizadas.

E na África Subsaariana surgiu o novo centro demográfico da fé cristã mundial.

Não estamos simplesmente assistindo à ascensão ou à queda do cristianismo.

Estamos assistindo à sua redistribuição e transformação.

E essa transformação nos obriga a separar três perguntas.

A igreja está crescendo?

Em muitos lugares, sim.

A igreja está influenciando?

Sem dúvida.

A igreja está sendo considerada confiável?

Essa é a pergunta cuja resposta deveria preocupar profundamente qualquer pessoa que se importe com o futuro do cristianismo.

Porque uma instituição pode sobreviver sem ser dominante.

Pode sobreviver sem possuir poder político.

Pode sobreviver sem grandes recursos financeiros.

Cristãos fizeram isso durante séculos.

Mas uma instituição cuja mensagem depende de credibilidade enfrenta enorme dificuldade quando suas próprias ações tornam essa mensagem pouco confiável.

Talvez, portanto, o maior desafio da igreja no século XXI não seja conquistar novamente o mundo.

Talvez seja demonstrar ao mundo que sua mensagem ainda pode ser reconhecida em sua própria maneira de viver.

Templos podem ser construídos.

Impérios de comunicação podem ser construídos.

Partidos podem ser organizados.

Fortunas podem ser acumuladas.

Audiências podem ser compradas.

Algoritmos podem multiplicar alcance.

Mas existe uma coisa que nenhuma instituição consegue exigir:

confiança.

Ela precisa ser conquistada.

Dia após dia.

Decisão após decisão.

Fruto após fruto.

E talvez seja justamente aí que esteja a diferença entre uma igreja simplesmente grande e uma igreja verdadeiramente influente.

Referências principais

1. IBGE. Censo Demográfico 2022 — Religiões: resultados preliminares da amostra. O levantamento considera pessoas de 10 anos ou mais e disponibiliza as tabelas oficiais pelo SIDRA.

2. ARAÚJO, Victor. Centro de Estudos da Metrópole — CEM/CEPID-FAPESP. Surgimento, trajetória e expansão das igrejas evangélicas no território brasileiro ao longo do último século (1920–2019). Nota Técnica nº 20, 2023.

3. PEW RESEARCH CENTER. Catholicism Has Declined in Latin America Over the Past Decade, 2026. Pesquisa sobre Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru.

4. PEW RESEARCH CENTER. Religious Landscape Study 2023–24, publicada em 2025. Dados sobre cristianismo, evangelicalismo, protestantismo histórico, protestantismo historicamente negro, igrejas não denominacionais e mudança religiosa nos Estados Unidos.

5. GALLUP. Confidence in Institutions — Church or Organized Religion. Série histórica atualizada até 2026.

6. SOUTHERN BAPTIST CONVENTION. Fast Facts / Annual Church Profile 2024. Estatísticas oficiais de igrejas, membros, frequência e batismos.

7. PEW RESEARCH CENTER. How the Global Religious Landscape Changed From 2010 to 2020, publicado em 2025. Estudo global sobre mudança religiosa e a nova distribuição geográfica do cristianismo.

8. OFFICE FOR NATIONAL STATISTICS. Religion, England and Wales: Census 2021.

9. INSEE; INED. La diversité religieuse en France: transmissions intergénérationnelles et pratiques selon les origines. Dados de 2019–2020.

10. EVANGELISCHE KIRCHE IN DEUTSCHLAND — EKD. Estatísticas oficiais de membros referentes a 2025, publicadas em 2026.

11. CGADB — Convenção Geral dos Ministros das Igrejas Evangélicas Assembleias de Deus do Brasil. Estrutura e convenções filiadas, consultadas para demonstrar a diversidade organizacional assembleiana.

12. IGREJA UNIVERSAL DO REINO DE DEUS. Dados institucionais de presença internacional publicados pela própria denominação em 2026 e tratados nesta pesquisa como informações autodeclaradas.

13. PEW RESEARCH CENTER. Pesquisas sobre transmissão religiosa, mudança geracional e permanência da desfiliação religiosa nos Estados Unidos.

14. PEW RESEARCH CENTER. Estudos sobre identidade religiosa, crenças e diferenças geracionais na América Latina, 2026.

15. Pesquisa original que deu origem a este dossiê. O documento inicial reuniu 31 referências e estabeleceu a comparação entre Brasil e América Latina, Estados Unidos, África e Europa. Nesta versão, foram priorizadas fontes como IBGE, Pew Research Center, Gallup, universidades e bases denominacionais oficiais.

✦Você Não Sabia — Bíblia e Revelação